Crise de confiança: Coluna “Sessão de Terapia” por Candice Galvão no Blog José Patrício | 15
- Candice Galvão

- 23 de jun.
- 4 min de leitura

Crise de confiança: por que um resultado ruim não define quem você é
Pressão, medo de errar e expectativas podem abalar a forma como enxergamos a própria trajetória, mas um resultado ruim não define quem você é.
Por Candice Galvão - Psicóloga
Assistir a uma Copa do Mundo sempre mexe com a gente e pode até despertar uma crise de confiança diante da pressão por resultados. Eu, que não entendo quase nada de futebol, rapidamente me transformo em técnica, comentarista, psicóloga da seleção e, em determinados momentos, até em mãe daqueles jogadores.
No último jogo, porém, algo me chamou mais atenção do que o resultado: a tensão estampada no rosto dos atletas.
Era como se cada um deles carregasse um peso invisível. Um peso que nenhuma estatística consegue mostrar, mas que qualquer pessoa reconhece quando já precisou corresponder a uma expectativa importante.
O medo de errar.
O medo de decepcionar.
O medo de não estar à altura.
Talvez seja justamente nesse ponto que o futebol se encontre com a vida.
Na perspectiva da Psicologia Histórico-Cultural, compreendemos que nossas emoções não surgem de forma isolada, apenas dentro de nós. Elas são construídas nas relações que estabelecemos, nas experiências que vivemos e nos significados que atribuímos à nossa própria história.
Ninguém se torna inseguro sem que existam experiências, relações e contextos envolvidos.
Da mesma forma, ninguém constrói confiança completamente sozinho.
O peso das expectativas
A camisa da seleção não pesa apenas pelo tecido. Ela carrega memórias, expectativas, comparações, conquistas passadas, derrotas difíceis e até traumas coletivos. Em campo, aqueles jogadores não representam somente a si mesmos. Para muitas pessoas, eles carregam a história e os sonhos de um país inteiro.
Mas quantas vezes também fazemos isso conosco?
Quantas vezes entramos em uma reunião carregando todas as expectativas que acreditamos que os outros depositaram sobre nós?
Quantas vezes assumimos um novo cargo tentando provar, a todo momento, que merecemos estar ali?
Quantas vezes nos enxergamos pelo espelho das cobranças externas e esquecemos de reconhecer a trajetória que nos trouxe até aquele lugar?
A confiança não é apenas um traço fixo da personalidade. Ela é uma construção produzida ao longo da vida, por meio das experiências, dos vínculos, dos aprendizados e da maneira como interpretamos o que nos acontece.
E toda construção pode sofrer abalos.
Por isso, uma crise de confiança não deve ser automaticamente compreendida como sinal de fraqueza. Muitas vezes, ela aparece justamente quando algo importa profundamente.
Quando existe investimento emocional.
Quando existe compromisso.
Quando existe o desejo genuíno de fazer dar certo.
Pessoas completamente indiferentes raramente entram em crise por causa de um resultado. Quem vivencia esse conflito, geralmente, está tentando corresponder a algo que considera importante e valioso.
Quando o resultado parece definir quem somos
O problema começa quando deixamos de compreender o resultado como parte de uma experiência e passamos a utilizá-lo como uma definição sobre quem somos.
Um jogo ruim não transforma um grande atleta em um atleta ruim.
Uma apresentação difícil não torna um bom profissional incompetente.
Um erro não apaga todos os acertos anteriores.
Um fracasso não elimina uma trajetória inteira.
Vivemos, no entanto, em uma cultura que valoriza excessivamente a performance e frequentemente reduz pessoas aos seus resultados. Nesse contexto, qualquer tropeço deixa de ser percebido como uma experiência pontual e começa a parecer uma sentença definitiva.
Talvez, por isso, a pergunta mais importante não seja apenas: “Como recuperar a confiança?”
Talvez seja necessário perguntar:
“Quem me ensinou que só posso confiar em mim quando tudo dá certo?”
Essa pergunta nos convida a observar de onde vêm as nossas exigências. Ela também nos ajuda a perceber se estamos condicionando nosso valor pessoal às vitórias, ao reconhecimento, à aprovação dos outros ou à ausência completa de erros.
Confiança não é ausência de medo
Confiar em si mesmo não significa não sentir medo.
Não significa possuir certezas absolutas.
Também não representa uma garantia de sucesso.
Confiança é conseguir continuar caminhando mesmo quando a dúvida aparece. É reconhecer a própria história para além de um resultado e compreender que somos maiores do que os nossos piores dias.
Se eu pudesse entrar naquele vestiário depois de uma partida difícil, talvez não começasse falando sobre desempenho, estratégias ou números.
Eu lembraria aqueles jogadores de quem eles são quando o placar não os favorece.
Porque a confiança verdadeira não nasce apenas das vitórias. Ela também se desenvolve quando conseguimos atravessar as derrotas sem perder completamente a referência de quem somos.
Talvez o contrário da crise de confiança não seja uma autoconfiança absoluta, permanente e inabalável.
Talvez seja a autocompaixão.
A capacidade de reconhecer que nenhum resultado, por melhor ou pior que seja, tem o poder de resumir uma vida inteira.
Somos feitos de muito mais do que nossos acertos e erros. Somos constituídos pelas histórias que construímos, pelas relações que nos sustentam, pelos desafios que atravessamos e pela coragem de continuar, mesmo quando o placar não nos favorece.
E você? Quando foi a última vez que confundiu um momento difícil com quem você realmente é?









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