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Acolher na Farmácia propõe ampliar papel das farmácias no enfrentamento à violência contra a mulher

  • Foto do escritor: Redação
    Redação
  • há 2 horas
  • 3 min de leitura
Acolher na Farmácia propõe transformar farmácias em pontos de apoio para mulheres vítimas de violência
Criado por três farmacêuticas e uma psicóloga, projeto prevê capacitação para escuta, orientação e encaminhamento e complementa mecanismos já existentes de acesso à rede de proteção.

Com 155.111 denúncias de violência contra mulheres registradas pelo Ligue 180 em 2025 e quase 70% das agressões relatadas ocorrendo em ambiente doméstico, ampliar os caminhos para que uma vítima encontre ajuda continua sendo um desafio no Brasil. É nesse cenário que surge o Acolher na Farmácia, projeto que propõe utilizar a capilaridade das farmácias para oferecer pontos de escuta, orientação e encaminhamento a mulheres em situação de violência.


Idealizada pelas farmacêuticas Jacira Elvira, Elaine Pereira e Alcimara Camila, em parceria com a psicóloga Milena Paiva, a iniciativa parte de uma característica estratégica do setor: a presença cotidiana desses estabelecimentos em diferentes regiões do país. Levantamento divulgado pelo Sebrae aponta que o Brasil possui mais de 124 mil farmácias, distribuídas entre grandes centros, cidades do interior, bairros e comunidades.


Mais do que criar um novo mecanismo de pedido de socorro, o Acolher na Farmácia pretende estruturar uma atuação voltada também à escuta qualificada, ao acolhimento humanizado, à informação e ao encaminhamento para os canais oficiais de proteção. A proposta prevê capacitação das equipes participantes para reconhecer possíveis sinais de violência e saber como agir diante de uma mulher que procure ajuda, respeitando o sigilo, a segurança e os limites de atuação dos profissionais.


“A farmácia já é um espaço associado ao cuidado e faz parte da rotina de milhões de pessoas. O que propomos é preparar esse ambiente para que ele também possa representar um ponto seguro de escuta e orientação quando uma mulher precisar de ajuda”, explica Jacira Elvira.


A iniciativa se apresenta como complementar a mecanismos que já integram o enfrentamento à violência doméstica no país, entre eles o Sinal Vermelho contra a Violência Doméstica, instituído nacionalmente pela Lei nº 14.188/2021. O programa permite que a mulher utilize um sinal em formato de “X”, preferencialmente vermelho, para indicar que está em situação de violência e solicitar ajuda em instituições e estabelecimentos participantes.


No Acolher na Farmácia, a proposta vai além da identificação de um pedido emergencial ao trabalhar também com informação e acolhimento. Um dos princípios defendidos pelas idealizadoras é compreender que nem toda mulher que busca orientação está emocionalmente preparada para formalizar uma denúncia naquele momento.


“Existem mulheres que levam tempo até conseguir nomear o que estão vivendo ou perceber que estão dentro de um ciclo de violência. A escuta sem julgamento pode ser decisiva para que ela compreenda a situação, conheça os caminhos disponíveis e perceba que não está sozinha”, afirma a psicóloga Milena Paiva.


O modelo também estabelece limites para a atuação dentro das farmácias. As equipes não substituem autoridades policiais, órgãos de investigação ou serviços especializados. A função é acolher, fornecer informação segura e facilitar o acesso da mulher à rede competente quando necessário.


“Precisamos deixar muito claro até onde vai a nossa atuação. O profissional não está ali para investigar, decidir pela mulher ou assumir o papel das autoridades. Estamos falando de acolher, orientar e mostrar quais são os caminhos possíveis para que ela possa buscar proteção com segurança”, destaca Elaine Pereira.


Além da capacitação, o projeto prevê materiais educativos e sinalizações discretas nos estabelecimentos, ampliando o acesso a informações sobre violência contra a mulher e sobre os serviços disponíveis. A estratégia busca fazer da farmácia não apenas um local de passagem, mas também um espaço capaz de aproximar informações essenciais de pessoas que, muitas vezes, não sabem onde procurar ajuda.


Para Alcimara Camila, essa presença também pode produzir impacto para além do atendimento individual. “Quando levamos informação para um espaço tão presente na rotina das pessoas, conseguimos alcançar também famílias e comunidades. O objetivo é fortalecer uma consciência coletiva de que enfrentar a violência contra a mulher é uma responsabilidade de toda a sociedade”, afirma.


Outra frente prevista pelo Acolher na Farmácia é a aproximação com universidades e instituições de ensino, levando a discussão sobre violência doméstica, acolhimento humanizado e atuação integrada para a formação de futuros profissionais.


A dimensão do problema reforça a necessidade de ampliar os pontos de acesso à informação. Dados divulgados pelo Ministério das Mulheres mostram que o Ligue 180 recebeu 155.111 denúncias em 2025, média de 425 por dia e crescimento de 17,4% em relação ao ano anterior. Entre os registros, quase 70% das agressões ocorreram em ambiente doméstico.


O Ligue 180 funciona gratuitamente, 24 horas por dia, para orientação sobre direitos e serviços especializados e para recebimento e encaminhamento de denúncias. Em situações de emergência, a Polícia Militar deve ser acionada pelo 190.


Ao aproximar acolhimento e informação de estabelecimentos presentes no cotidiano da população, o Acolher na Farmácia propõe fortalecer uma etapa que pode ser determinante para mulheres em situação de violência: encontrar, com segurança e discrição, um primeiro caminho para pedir ajuda.

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