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Dependência emocional pode fazer controle parecer amor nos relacionamentos

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Redação
há 3 horas
3 min de leitura
Dependência emocional pode fazer controle parecer amor nos relacionamentos
Psicóloga jurídica Milena Paiva e filósofo Emerson Barros de Aguiar explicam como medo de abandono, hiperconexão e perda de autonomia podem distorcer vínculos afetivos.

Exigir respostas imediatas, acompanhar curtidas e seguidores, querer acesso ao celular do parceiro ou precisar saber constantemente onde ele está. Quando comportamentos como esses se somam ao medo intenso de abandono, à necessidade permanente de validação e à perda de autonomia, o que parece demonstração de amor pode revelar uma relação emocionalmente desequilibrada.


Em uma rotina cada vez mais atravessada por mensagens, redes sociais e disponibilidade quase permanente, inseguranças afetivas também encontram novas formas de manifestação. A dependência emocional, também chamada de dependência afetiva, pode aparecer quando a preservação do relacionamento começa a exigir que uma pessoa abra mão de limites, escolhas e referências próprias.


Para a psicóloga jurídica Milena Paiva, especialista em criminologia com ênfase em violência doméstica e crimes sexuais, o ponto de atenção está justamente na perda progressiva da individualidade. Perita judicial e assistente técnica com atuação em demandas de família, ela também desenvolve trabalhos voltados à saúde mental e ao enfrentamento da violência.


“Na dependência emocional, a pessoa pode abrir mão de referências próprias para preservar o vínculo. Isso aparece no medo intenso de abandono, na dificuldade de estabelecer limites e na necessidade constante de validação. Amar alguém é diferente de acreditar que não se consegue existir sem essa pessoa”, explica Milena.


Nem todo ciúme, sofrimento depois de um término ou necessidade de afeto, entretanto, representa dependência emocional. Relações envolvem proximidade, concessões e vulnerabilidade. O alerta surge quando o vínculo passa a interferir de forma recorrente nas decisões pessoais, provoca afastamento de amigos e familiares, compromete a autoestima ou faz com que comportamentos prejudiciais sejam justificados em nome do amor.


Para o escritor, filósofo, professor e bioeticista Emerson Barros de Aguiar, mestre em Filosofia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), essa confusão também passa pela maneira como o amor romântico foi construído culturalmente.


“A diferença fundamental é simples: amar alguém não significa precisar de alguém para existir”, afirma Emerson. Segundo ele, a ideia da “outra metade”, reproduzida por diferentes manifestações culturais ao longo do tempo, contribuiu para uma visão de que o indivíduo só se torna completo quando encontra outra pessoa.


O filósofo aponta a interdependência como uma compreensão mais saudável dos vínculos. Nesse modelo, existe afeto, compromisso e construção conjunta, mas a individualidade permanece. “Há uma diferença enorme entre dizer ‘preciso de você para viver’ e ‘quero viver com você’. Uma relação pode ser profunda sem exigir a anulação de quem está nela”, pontua.


O limite se torna ainda mais importante quando controle é confundido com cuidado. Exigir senhas, monitorar o celular, controlar roupas, amizades, horários e contatos ou utilizar culpa e ameaça para impedir uma separação são comportamentos que não devem ser naturalizados como provas de amor.


Milena ressalta, porém, que dependência emocional e relacionamento abusivo não são sinônimos e não devem ser tratados automaticamente como a mesma situação. Eles podem coexistir em determinados contextos, mas exigem avaliações distintas.


“O medo de perder a relação, a fragilização da autoestima e o isolamento podem, em alguns casos, dificultar a percepção de comportamentos abusivos. Por isso, é importante não romantizar controle, humilhação ou perda de liberdade como demonstrações de afeto”, afirma a psicóloga.


Medo extremo de abandono, necessidade contínua de confirmação do sentimento do parceiro, dificuldade de tomar decisões sozinho, afastamento da rede de apoio, culpa ao estabelecer limites e sensação de perda da própria identidade estão entre os comportamentos que merecem atenção quando se tornam persistentes e provocam sofrimento.


Para Milena Paiva e Emerson Barros de Aguiar, repensar a dependência emocional também significa abandonar uma ideia historicamente repetida sobre o amor: a de que duas pessoas precisam se completar para que uma relação tenha valor.


Uma relação saudável não exige que alguém desapareça para que o casal exista. Afeto, intimidade e compromisso podem caminhar ao lado de autonomia, limites e identidade própria. Nesse equilíbrio, estar com alguém deixa de ser uma condição para existir e passa a ser uma escolha de compartilhar a vida.

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