Órfãos do feminicídio enfrentam perdas simbólicas e estruturais que vão além da morte da mãe
- Redação
- há 2 dias
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Órfãos do feminicídio enfrentam perdas antes mesmo da morte da mãe. Em muitas famílias, crianças e adolescentes convivem por meses ou anos com ameaças, agressões, medo, controle e diferentes formas de privação provocadas pela violência doméstica, experiências que podem comprometer a sensação de segurança e deixar marcas profundas no desenvolvimento emocional.
Para a psicóloga jurídica Milena Paiva, especialista em criminologia com ênfase em violência doméstica e crimes sexuais, compreender a realidade desses filhos exige observar todo o ciclo de violência vivido dentro da família, e não apenas o momento do assassinato.
“Muitas dessas crianças já vivenciam uma espécie de morte simbólica da mãe antes da morte física. Essa mulher pode estar presente, mas submetida ao medo, ao controle, às ameaças e a diferentes formas de privação. A violência interfere em sua autonomia, em sua saúde emocional e em toda a dinâmica familiar, alcançando também os filhos”, explica.
Segundo Milena, a expressão não representa ausência de vínculo ou de afeto entre mãe e filhos. Trata-se de uma forma de compreender as perdas sucessivas provocadas pela violência, que pode fragilizar emocionalmente a mulher, restringir sua liberdade e modificar profundamente a convivência familiar.
Mesmo quando não são diretamente agredidos, crianças e adolescentes expostos à violência intrafamiliar podem apresentar medo, insegurança, isolamento, irritabilidade, dificuldades escolares, alterações no sono e problemas para estabelecer vínculos. Cada pessoa, no entanto, responde de maneira diferente, conforme a idade, o período de exposição à violência, os vínculos familiares e a rede de apoio disponível.
“O sofrimento dos órfãos do feminicídio nem sempre começa no dia do crime. Em muitos casos, ele foi construído ao longo do tempo dentro de uma casa marcada pela tensão, pela imprevisibilidade e pelo medo”, afirma a psicóloga.
Após o feminicídio, a ruptura familiar pode se tornar ainda mais profunda. Quando o autor do crime é o pai ou o companheiro da vítima, os filhos perdem a mãe para o assassinato e também podem ficar afastados da figura paterna em razão da fuga, prisão ou condenação. Em pouco tempo, moradia, rotina, escola e referências de cuidado podem mudar completamente.
A responsabilidade pelas crianças costuma ser assumida por avós, tios ou outros familiares que também enfrentam o luto e nem sempre possuem estrutura emocional e financeira para atender às novas necessidades. Além da ausência materna, os filhos podem conviver com culpa, vergonha, estigma social, conflitos de lealdade e sentimentos contraditórios em relação ao agressor.
“Uma criança pode sentir tristeza, medo, raiva, confusão e até manter algum afeto pela figura paterna. Ela não deve ser julgada nem pressionada a escolher o que sentir. Precisa encontrar um espaço seguro para compreender o que aconteceu, respeitando seu tempo e sua fase de desenvolvimento”, ressalta Milena Paiva.
A psicóloga destaca que não existe uma reação única diante do trauma. Algumas crianças demonstram sofrimento imediatamente, enquanto outras podem apresentar mudanças meses ou anos depois, à medida que amadurecem e passam a compreender melhor a dimensão da perda.
Em 2021, mais de 2 mil brasileiros ficaram órfãos em decorrência de feminicídios, segundo informação divulgada pelo Senado Federal. O dado revela uma dimensão ainda pouco visibilizada da violência contra a mulher: por trás de cada vítima, podem existir filhos que permanecem vivos e passam a enfrentar consequências psicológicas, sociais, educacionais e financeiras.
A discussão ganha ainda mais urgência diante dos números recentes. Em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios, o maior total desde que o crime passou a ser tipificado no país, em 2015. O número representa crescimento de 4,7% em relação a 2024.
Para Milena Paiva, cada registro também deveria provocar uma pergunta essencial: quantas crianças e adolescentes foram deixados para trás e estão recebendo acompanhamento adequado?
“Esses órfãos seguem vivos, mas muitas vezes permanecem invisíveis em suas necessidades, dores e incertezas. Não basta encontrar um familiar que assuma a guarda. É preciso acompanhar o desenvolvimento, a permanência na escola, os vínculos familiares e a maneira como essa experiência será elaborada ao longo do tempo”, alerta.
Acolhimento deve ir além da proteção financeira
A Lei nº 14.717, de 2023, instituiu uma pensão especial de um salário mínimo para filhos e dependentes menores de 18 anos de mulheres vítimas de feminicídio que atendam ao critério de renda estabelecido pela legislação. O benefício foi regulamentado pelo Decreto nº 12.636, de setembro de 2025.
Apesar do avanço, Milena defende que a proteção não pode se limitar ao auxílio financeiro. O acompanhamento psicológico, a assistência social, o acolhimento escolar e a atuação articulada entre saúde, educação, Justiça, Conselhos Tutelares e demais integrantes da rede de proteção são fundamentais para que essas crianças consigam elaborar o luto e reconstruir referências de segurança.
O cuidado também precisa alcançar os familiares que assumem a guarda. Em muitos casos, avós e outros parentes precisam reorganizar toda a vida enquanto enfrentam a própria dor, novas despesas e a responsabilidade de acolher crianças profundamente afetadas.
A escola também exerce papel importante. Professores e equipes pedagógicas devem estar preparados para acolher possíveis mudanças de comportamento ou rendimento sem expor a história da criança diante de colegas. Quando existe escuta responsável e respeito à privacidade, o ambiente escolar pode funcionar como uma referência de estabilidade.
“A criança não pode ser reduzida à condição de filha de uma mulher assassinada ou de um homem que cometeu um crime. Ela possui identidade, potencialidades e projetos próprios. O acolhimento precisa ajudá-la a compreender sua história sem permitir que o feminicídio determine toda a sua existência”, defende a psicóloga.
Para Milena Paiva, políticas públicas permanentes e acompanhamento especializado são indispensáveis para evitar que as consequências da violência atravessem gerações.
“Romper esse ciclo significa garantir que crianças e adolescentes não precisem sobreviver sozinhos aos prejuízos deixados pelo feminicídio. A experiência vivida não pode se transformar em uma condenação para o futuro”, conclui.
Sobre Milena Paiva
Milena Paiva é psicóloga jurídica e especialista em criminologia, com ênfase em violência doméstica e crimes sexuais. Atua na interface entre psicologia, direitos humanos e intervenção social, com experiência em ações de psicoeducação, palestras, rodas de conversa e atendimentos comunitários em estados do Norte e do Nordeste.









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