Coluna “Sessão de Terapia“ por Candice Galvão no Blog José Patrício | 03
- Candice Galvão

- 23 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Amar não é ser leve
Por Candice Galvão – Psicóloga Clínica
Existe uma expectativa difundida, quase um mantra moderno, de que amar deveria ser leve.
Leve para começar, leve para manter, leve para permanecer. Como se o amor verdadeiro fosse sempre fácil, suave, fluido, isento de atritos. Mas a vida real, aquela que pulsa nos consultórios, nas famílias, nos casamentos, nas amizades e em nós mesmos, mostra outra coisa: amar não é ser leve. Amar é ser real. E a realidade, por mais bonita que seja, não é feita apenas de suavidade.

O romantismo da leveza e o peso da vida O mito da leveza cria uma armadilha emocional.
Nos faz acreditar que, quando o amor pesa, é sinal de erro. Que quando exige esforço, algo está errado. Que quando mexe com nossas limitações, devemos recuar. Mas amar não é flutuar. Amar é caminhar. E caminhar implica atrito, escolhas, revisões, renúncias conscientes, pequenas reparações, escutas difíceis e a coragem de sustentar diálogos que não são confortáveis. Leveza constante não é amor. É fantasia.
O amor pesa quando:
• precisamos pedir perdão;
• somos convocados a rever algo em nós;
• reconhecemos que ferimos sem querer;
• percebemos que não sabemos amar tão bem quanto imaginamos;
• enfrentamos inseguranças que tentamos esconder;
• descobrimos que o outro não é idealizado, e sim humano;
• somos chamados a sustentar limites que preferíamos evitar.
Esse peso não destrói, amadurece. Amar não é ser leve, mas é aprender a carregar o que importa sem se perder de si.
Em consultório, vejo frequentemente pessoas vivendo relações “leves” demais, relações onde não existe conflito, mas também não existe profundidade; onde não há atrito, mas também não há construção.
A leveza artificial adoece porque:
• impede a autenticidade,
• evita conversas difíceis,
• cria vínculos superficiais,
• e sustenta uma ideia de paz que, na prática, é silêncio e distância.
A ausência de peso não indica harmonia. Às vezes indica apenas desconexão afetiva.
O peso saudável do amor é feito de presença. É aquilo que carregamos juntos: as incertezas, os medos, os sonhos possíveis, a história individual de cada um.
Amar é pesar ao lado, não pesar sobre.
É caminhar juntos mesmo quando o terreno não é simples.
O amor leve demais escapa.
O amor pesado demais sufoca.
O amor real equilibra.
Amar dá trabalho, e isso é bom.
O amor exige:
• comunicação honesta;
• vulnerabilidade compartilhada;
• escuta que não desqualifica;
• reparação quando necessário;
• paciência para o tempo do outro;
• liberdade para cada um ser quem é;
• compromisso com a própria responsabilidade emocional.
Tudo isso tem peso, mas um peso que fortalece. O que machuca não é o esforço, e sim o esforço unilateral. Amor só dói quando precisa ser sustentado sozinho.
Quando entendemos que o amor não precisa ser leve para ser bom, abrimos espaço para relações mais verdadeiras. Relações onde a beleza não está na ausência de peso, mas na capacidade de carregá-lo de forma compartilhada, honesta e humana.
Amar não é leve.
Mas é luminoso.
Porque exige da gente algo que poucas experiências exigem: a coragem de permanecer real mesmo quando é mais fácil performar leveza. E, no fim das contas, é essa verdade que faz o amor valer a pena.











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