Coluna “Sessão de Terapia“ por Candice Galvão no Blog José Patrício | 05
- Candice Galvão

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Os contratos invisíveis que assinamos sem dar conta: o preço emocional de querer pertencer
Por Candice Galvão – Psicóloga Clínica
Ao longo da vida, assinamos contratos que nunca lemos.
Não estão no papel, não exigem assinatura formal, mas organizam profundamente nossas escolhas, nossos silêncios e nossas relações. São os contratos invisíveis, aqueles acordos emocionais que fazemos para sermos aceitos, reconhecidos e pertencentes. E quase sempre, eles nascem do encontro entre o ego e o medo de não ser suficiente.
O que são os contratos invisíveis
Contratos invisíveis são combinações implícitas que fazemos com o mundo e com os outros, como:
•”Se eu agradar, serei amado.”
. “Se eu não discordar, não serei abandonado.”
•”Se eu for forte o tempo todo, não serei um peso.”
•”Se eu me moldar, serei aceito.”
Esses contratos raramente são conscientes. Eles se formam cedo, em experiências onde pertencimento e sobrevivência emocional caminharam juntos. E, uma vez assinados, passam a operar como regra interna.
O ego não é vilão. Ele é uma instância de proteção, organização e adaptação. O problema surge quando o ego passa a negociar demais para garantir aceitação. Quando isso acontece, o sujeito começa a viver mais preocupado em manter lugar do que em habitar a própria verdade. O ego, então, aprende que:
•ser autêntico pode custar vínculos,
•dizer não pode gerar rejeição,
•mostrar fragilidade pode diminuir valor.
E, para evitar essas perdas, aceita contratos cada vez mais caros.
Nenhum contrato invisível é gratuito. O preço aparece no corpo, na exaustão emocional, nos sintomas silenciosos. Alguns custos comuns:
•dificuldade de impor limites,
•sensação constante de inadequação,
•culpa ao priorizar a si,
•relações desequilibradas,
•medo excessivo de desagradar,
•perda de contato com desejos próprios.
O sujeito é aceito, mas não inteiro.
Pertence, mas às custas de si.
Por que continuamos renovando contratos que nos ferem?
Porque eles já funcionaram um dia. Em algum momento da história, adaptar-se foi a única forma possível de ser visto, cuidado ou protegido.
Do ponto de vista sócio-histórico, esses contratos não surgem do nada: eles são respostas a contextos, relações e expectativas sociais que ensinaram que existir tem um preço. Romper com eles exige mais do que vontade — exige elaboração.
A terapia como espaço de leitura e rescisão
Na psicoterapia, algo fundamental acontece:
os contratos invisíveis se tornam visíveis. É nesse espaço que o sujeito pode perguntar:
•Quando comecei a viver assim?
•O que eu precisei silenciar para ser aceito?
•Quais contratos ainda fazem sentido?
•Quais já me custam demais?
Rescindir não significa romper com tudo — significa renegociar a relação consigo e com o mundo.
Aceitação que exige autoabandono não é aceitação
Talvez um dos maiores amadurecimentos emocionais seja perceber que não vale qualquer pertencimento.
Que algumas formas de aceitação pedem um preço alto demais: a própria integridade psíquica. Relações saudáveis não exigem contratos secretos.
Elas permitem presença, limite e verdade.
Conclusão: viver sem contratos invisíveis é um exercício contínuo
Não existe vida sem negociação. Mas existe vida com mais consciência. Quando reconhecemos os contratos que assinamos sem perceber, ganhamos algo precioso: a possibilidade de escolher diferente.
E escolher diferente, muitas vezes, é o começo de uma vida mais honesta, menos performática e emocionalmente mais habitável.











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