Coluna “Sessão de Terapia“ por Candice Galvão no Blog José Patrício | 04
- Candice Galvão

- 8 de jan.
- 3 min de leitura
Recomeços: por que não dá para atravessar um novo ciclo sem se escutar ou Quando mudar o ano não basta, é preciso mudar o modo de se escutar.
Por Candice Galvão – Psicóloga Clínica

Todo início de ano carrega uma promessa silenciosa: a de que algo pode ser diferente. Falamos em recomeços, novos planos, novas versões de nós mesmos. Mas, na prática, muitos atravessam a virada do calendário repetindo os mesmos padrões, sustentando os mesmos cansaços e silenciando as mesmas dores. Isso acontece porque recomeçar não é um gesto externo. É um movimento interno, e, quase sempre, solitário demais para ser feito sem ajuda.
Fomos educados a acreditar que força emocional é sinônimo de dar conta sozinho. Que maturidade é “superar” rapidamente. Que sofrimento precisa ser contido para não incomodar. Esse mito cria recomeços frágeis.Tentamos mudar a vida sem olhar para a história que nos trouxe até aqui. E, sem esse olhar, o novo ano começa com velhos funcionamentos. Recomeçar sem se escutar é apenas mudar o cenário, não a estrutura.
A terapia não promete atalhos. Ela oferece algo mais raro: tempo, escuta e elaboração. É no espaço terapêutico que:
• padrões deixam de ser automáticos e passam a ser compreendidos,
• dores ganham nome e sentido,
• repetições começam a ser interrompidas,
• escolhas deixam de ser reativas,
• limites se tornam possíveis,
• e a história pessoal pode ser reinterpretada.
A terapia não apaga o passado, ela o reposiciona.
Não existe recomeço real sem contato com a própria história. Nossos modos de amar, trabalhar, suportar, adoecer e resistir não surgiram do nada, foram construídos em contextos específicos, em relações marcantes, em tentativas de sobrevivência emocional. A psicoterapia, especialmente a partir de uma perspectiva sócio-histórica, nos ajuda a entender como nos tornamos quem somos, para então decidir quem desejamos ser. Recomeçar, nesse sentido, não é negar o que foi vivido, mas resignificar o que foi aprendido.
Talvez o maior gesto de cuidado neste início de ano não seja fazer listas de metas, mas se perguntar:
• Por que repito o que me machuca?
• O que tenho sustentado por medo de perder pertencimento?
• Quais dores eu normalizei?
• Que partes de mim estão pedindo escuta?
A terapia é o lugar onde essas perguntas não precisam ser respondidas rapidamente, apenas honestamente.
Recomeços verdadeiros exigem:
• atravessar lutos,
• encerrar ciclos,
• suportar intervalos,
• rever expectativas,
• e construir novos sentidos.
A psicoterapia não acelera esse processo, ela o sustenta.
O que adoece não é o desejo de mudar, mas a urgência de mudar sem elaboração. Recomeços verdadeiros exigem:
• atravessar lutos,
• encerrar ciclos,
• suportar intervalos,
• rever expectativas,
• e construir novos sentidos.
A psicoterapia não acelera esse processo, ela o sustenta.
Talvez este seja o convite mais importante início de ano: reconhecer que cuidar da saúde mental não é sinal de fraqueza, mas de responsabilidade consigo mesmo. Recomeçar pode, e deve, incluir a decisão de não seguir sozinho. Porque algumas travessias só se tornam possíveis quando alguém nos acompanha. Que este novo ciclo seja menos sobre resistir e mais sobre compreender. Menos sobre suportar e mais sobre cuidar. Menos sobre repetir e mais sobre se escutar.
Que 2026 seja um ano de escolhas conscientes, de escuta cuidadosa e de coragem para olhar para si com honestidade. Que cada um de vocês possa construir um caminho com mais significado, mais presença e mais cuidado consigo e com suas próprias histórias.
Que 2026 seja menos sobre correr atrás de versões ideais e mais sobre construir sentidos possíveis. Um ano em que o cuidado com a saúde mental não seja exceção, mas escolha; não seja adiamento, mas prioridade. Que cada leitor possa atravessar o novo ciclo com mais escuta, mais presença e mais responsabilidade afetiva consigo mesmo. Porque viver com significado também é uma forma profunda de cuidado.









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