Coluna “Sessão de Terapia“ por Candice Galvão no Blog José Patrício | 06
- Candice Galvão
- há 6 horas
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Amar de novo ativa memórias, não só expectativas.
Por Candice Galvão – Psicóloga Clínica
Quando nos aproximamos de um novo vínculo, não chegamos vazios. Levamos conosco marcas, aprendizados, defesas e também medos. O corpo lembra antes da consciência: lembra do que doeu, do que foi excessivo, do que exigiu silêncios longos demais. Por isso, muitas vezes, o amor que nasce vem acompanhado de vigilância interna:
• medo de se doar demais,
• medo de se perder novamente,
• medo de repetir padrões,
• medo de não saber parar.
Amar de novo não é simples porque envolve reorganizar essas memórias afetivas.
O problema não é o amor, é a forma como aprendemos a amar. Muitos de nós fomos ensinados que amar exige renúncia extrema, adaptação constante e disponibilidade sem medida. Confundimos amor com fusão. Cuidado com autoabandono. Entrega com anulação. Quando isso não é elaborado, o amor deixa de ser encontro e passa a ser perda de si. A maturidade emocional começa quando conseguimos sustentar uma pergunta fundamental: “Consigo amar e, ainda assim, permanecer inteira?”
Amar de forma mais saudável envolve:
• reconhecer limites sem culpa,
• sustentar o próprio desejo,
• tolerar frustrações sem romper consigo,
• diferenciar amor de dependência,
• entender que vínculo não exige sacrifício constante.
Esse aprendizado não acontece por força de vontade. Acontece por elaboração.
Talvez a maior coragem não esteja em se permitir amar outra vez, mas em não amar como antes. Em interromper ciclos de excesso, silêncio, medo ou submissão. Em confiar sem se apagar. Em se vincular sem se abandonar. Amar de novo pode ser um recomeço profundo quando deixamos de usar o amor como tentativa de preenchimento e passamos a vivê-lo como espaço de troca. E é nesse ponto que o processo terapêutico se torna um aliado importante: ele ajuda a identificar padrões, compreender repetições e construir novas formas de vínculo, mais conscientes, mais recíprocas, mais respeitosas.
O amor que amadurece não exige que deixemos partes nossas pelo caminho. Ele soma, amplia, acolhe, não diminui. Se amar de novo é um desafio, que seja um desafio vivido com presença, consciência e cuidado.
Porque quando o amor nos afasta de quem somos, não é amor, é repetição. E crescer, inclusive no amar, é aprender a escolher diferente.
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Sobre Candice Galvão
Candice Galvão é psicóloga clínica com atuação voltada para saúde mental feminina, relações afetivas e análise do comportamento. Em seu trabalho, aborda temas como autoestima, regulação emocional, padrões de relacionamento e os impactos sociais sobre o sofrimento psíquico das mulheres. Com uma comunicação acessível e baseada em evidências, Candice une prática clínica e reflexão crítica para ampliar o debate público sobre psicologia, gênero e bem-estar emocional, contribuindo para que mais pessoas compreendam seus processos internos de forma acolhedora e responsável. Acompanhe mais sobre seu trabalho e sobre saúde mental pelo instagram @candicegalvaopsicologia







