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Coluna “Sessão de Terapia“ por Candice Galvão no Blog José Patrício | 01

  • Foto do escritor: Candice Galvão
    Candice Galvão
  • 10 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

A estética da bondade e o fingimento social crônico no mundo do trabalho: por que trocar a verdade para ser aceito é uma cilada


Coluna “Sessão de Terapia“ por Candice Galvão no Blog José Patrício | 01

Vivemos uma era em que a imagem se tornou um produto tão valioso quanto qualquer entrega profissional. No ambiente de trabalho, isso se traduz em um fenômeno crescente: a estética da bondade, um conjunto de comportamentos performados para parecer sempre gentil, colaborativo, emocionalmente estável e “agradável”, mesmo quando isso custa a própria verdade.


O resultado? Uma epidemia silenciosa de fingimento social crônico, em que pessoas sentem que precisam se omitir, suavizar opiniões ou manter uma versão editada de si mesmas para sobreviver no ambiente corporativo. Neste artigo, analiso por que isso está acontecendo agora, o que os dados mostram, os custos psicológicos desse cenário e o que ainda precisamos aprender.


O lugar onde a verdade virou risco. A verdade, ou simplesmente expressar desconforto, opinião divergente ou limite, passou a carregar um risco real nas relações de trabalho.


Muitos profissionais relatam que:

• dizer “não” pode ser interpretado como falta de espírito de equipe;

• apontar falhas pode ser visto como “tóxico”;

• pedir ajuda pode soar como incompetência;

• discordar pode ameaçar relações e oportunidades.


Cria-se uma cultura organizacional onde a autenticidade é punida e a conformidade é recompensada. O colaborador aprende rapidamente que o comportamento mais seguro não é o mais verdadeiro, e sim o mais aceitável. E aceitação virou moeda.


O que os dados nos mostram:

Pesquisas recentes em psicologia organizacional e saúde mental no trabalho apontam que:

• 63% dos trabalhadores relatam esconder emoções reais no ambiente profissional para evitar conflitos.

• 52% dizem ter medo de expressar opiniões verdadeiras por risco de julgamento ou retaliação.

• Funcionários que usam “máscaras sociais” constantes têm aumento de até 40% nos índices de exaustão emocional.

• Ambientes que estimulam performatividade emocional apresentam maior incidência de ansiedade generalizada, burnout e baixa autoestima profissional.


Esses dados revelam algo central: não estamos fingindo por escolha, mas por sobrevivência social.


Por que isso está acontecendo agora?


Há três movimentos sociais importantes que explicam o fenômeno:

  1. A cultura da positividade absoluta: redes sociais e empresas se alinham para promover discursos de bem-estar permanente.

    No trabalho, isso se traduz em slogans como: “somos uma família”, “aqui todo mundo se ajuda”, “energia positiva sempre”. Na prática, esses discursos criam um padrão emocional artificial;

  2. Ambientes cada vez mais competitivos: em cenários instáveis, econômicos e sociais, os colaboradores percebem que qualquer comportamento pode afetar sua permanência. Quanto maior o medo, maior o esforço de mascaramento;

  3. A performance como capital: não basta trabalhar bem: é esperado parecer leve, simpático, resiliente e sempre disposto. A imagem tornou-se parte da avaliação de desempenho.


O custo disso: os impactos são profundos, psicológicos, relacionais e organizacionais:

  1. ⁠Exaustão emocional e burnout: Manter uma versão editada de si mesmo diariamente drena recursos mentais. É como viver em modo de atuação constante.

  2. ⁠Perda de senso de identidade: O colaborador começa a confundir quem é de fato com quem precisa parecer ser.

  3. Comunicação ineficaz e baixa criatividade: Quando ninguém ousa discordar, inovar ou apontar fragilidades, as equipes empobrecem intelectualmente.

  4. Relações superficiais e competitivas: a estética da bondade muitas vezes encobre ressentimentos, rivalidades e conflitos não resolvidos.

  5. ⁠Adoecimento silencioso: ansiedade, insônia, sensação de inadequação e isolamento emocional tornam-se rotina.


O que ainda precisamos aprender:


Como sociedade, ainda precisamos compreender que:

  1. ⁠Bondade não é ausência de conflito: Ambientes saudáveis acolhem divergências e limites, não apenas sorrisos.

  2. Transparência emocional não é fraqueza: Reconhecer que algo faz mal ou incomoda é base para relações maduras e éticas.

  3. Nem toda “boa convivência” é saudável: Harmonia forçada é uma forma silenciosa de violência institucional.

  4. Autenticidade é ferramenta de saúde mental: Trabalhar sem precisar mentir sobre si mesmo melhora autoestima, engajamento e segurança psicológica.

  5. O trabalho não deveria exigir máscaras: Mas isso exige organizações preparadas para lidar com vulnerabilidade, conflito e complexidade humana, e esse ainda é um grande desafio.


A estética da bondade pode parecer elegante, eficiente e socialmente aceitável. Mas, quando se transforma em exigência, ela cobra um preço alto: a verdade. E trocar a verdade pela aceitação é sempre uma cilada, porque quem é visto, admirado ou promovido não é você, mas a máscara que você veste.


A honestidade madura não humilha, não expõe, não interrompe laços. No mundo corporativo , a coragem de ser honesto ainda é revolucionária. E talvez seja justamente essa revolução silenciosa que esteja faltando em muitas organizações. Não se sofre por excesso de sinceridade. Sofre por déficit de verdade.


E enquanto seguirmos confundindo verdade com violência, e gentileza performática com maturidade, vamos continuar produzindo ambientes “agradáveis” e profundamente frágeis. No fim das contas, escolher a verdade é escolher crescer, mesmo quando dá medo. E, no trabalho ou na vida, eu sigo acreditando: nada sustenta mais uma relação do que a coragem de ser real.

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