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Conhecer o próprio tamanho: Coluna “Sessão de Terapia” por Candice Galvão no Blog José Patrício | 16

  • Foto do escritor: Candice Galvão
    Candice Galvão
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura
Conhecer o próprio tamanho envolve autoestima, identidade e percepção de si, reflete Candice Galvão

Você sabe o seu tamanho? Autoestima, identidade e a coragem de não se diminuir

Entre expectativas, críticas e necessidade de pertencimento, podemos passar anos tentando parecer maiores ou menores do que somos. A liberdade começa quando deixamos de terceirizar a definição de quem somos.

Por Candice Galvão – Psicóloga

Esses dias, estive em um encontro em que nós, participantes, nos apresentamos por meio de uma autodescrição: uma breve narrativa das nossas características físicas, utilizada como ferramenta de inclusão para pessoas com deficiência visual.


Foi então que percebi algo curioso. Muitas mulheres de estatura mediana ou alta se descreviam como baixas. Enquanto alguns homens de altura mediana ou baixa se percebiam como altos.


Não quero entrar no território das questões de gênero, muito menos sugerir que centímetros sejam mérito ou demérito. O que realmente me chamou a atenção foi outra coisa: a percepção que temos do nosso próprio tamanho é profundamente subjetiva.


E talvez essa conversa nunca tenha sido sobre altura.


Talvez seja sobre a medida da nossa autoestima.


Sobre a distância entre quem somos e quem aprendemos que deveríamos ser.

Nossa identidade não nasce pronta. Ela é construída, pouco a pouco, pelos olhares que nos atravessam: da família, da escola, dos afetos, das rejeições, dos elogios e das críticas. Muitas vezes, passamos anos olhando para nós mesmos através de espelhos que nunca nos pertenceram.


Aquela cena imediatamente me lembrou o documentário Maria – Ninguém Sabe Quem Sou, quando Maria Bethânia diz:

“Nem pra cima nem pra baixo. Eu sei exatamente o meu tamanho. Não é o sucesso quem vai me dizer isso nem ninguém.”


Mais adiante, ela continua:

“Ouço coisas lindas, como abelha rainha, estrela… Acho tudo muito bonito e carinhoso. Mas não sou abelha, nem rainha. Sou uma pessoa, com erros e acertos. Eu tenho uma voz que Deus me deu, e que me faz merecer esses cumprimentos. Essa voz é Ele vivo em mim.”


Há uma liberdade imensa em quem conhece o próprio tamanho.


Porque não precisa se engrandecer para existir, nem se diminuir para ser aceito.

Penso em quantas vezes tentamos caber onde não cabemos. Quantas vezes reduzimos nossa inteligência para não intimidar. Escondemos nossas conquistas para não despertar inveja. Silenciamos opiniões para preservar vínculos. Pedimos desculpas por ocupar espaços que conquistamos legitimamente.


O cérebro aprende muito cedo quais comportamentos garantem pertencimento. Se, em algum momento da nossa história, entendemos que ser aceito dependia de nos encolhermos, essa estratégia passa a funcionar quase automaticamente. O problema é que aquilo que um dia nos protegeu pode, anos depois, nos aprisionar.


Também acontece o contrário.


Há momentos em que sentimos necessidade de parecer maiores do que somos. Exageramos competências, escondemos fragilidades, sustentamos personagens. Não porque sejamos arrogantes, mas porque acreditamos que nosso valor depende da imagem que conseguimos projetar.


Nos dois casos existe sofrimento.


Quem se diminui vive distante de si.


Quem se agiganta também.


Quando, na verdade, conhecer o próprio tamanho é o que realmente nos torna grandes.

E, por grandes, quero dizer inteiros.

Sem sobrar. Sem faltar.


Caber em quem somos não nasce da arrogância, como se fôssemos a melhor versão possível da humanidade. Nasce da humildade. Curiosamente, só quem consegue ser humilde consigo mesmo é capaz de reconhecer, sem culpa, aquilo que possui de bonito.


Essa é uma das reflexões que encontrei em A Coragem de Ser Gente de Verdade: Um Caminho para uma Vida sem Máscaras, de Jacqueline Pereira. Ela nos lembra que reconhecer nossos dons não é vaidade. É responsabilidade. Afinal, eles nos foram confiados para serem colocados a serviço da vida.


É isso.


Ninguém é você.

E esse continua sendo o seu maior superpoder.


Depois de muito tempo, compreendi também que algumas pessoas se incomodam com quem sustenta a própria luz. Não porque nossa existência seja uma ameaça, mas porque ela pode revelar ausências que ainda doem nelas.


O perigo começa quando passamos a administrar nossa intensidade para proteger o desconforto dos outros.

É nesse momento que nos encolhemos.

E deixamos, pouco a pouco, de ser.


Só que relações verdadeiras não nascem quando escondemos quem somos. Elas começam justamente quando sustentamos nosso tamanho, com firmeza e delicadeza. Nem maiores para impressionar. Nem menores para caber.


Hoje, quando me autodescrevo, permito dizer que sou uma mulher talentosa. Que escreve e se comunica bem. Que constrói pontes entre pessoas, ideias e afetos. Que continua olhando o mundo com curiosidade, como se muita coisa ainda fosse novidade.

Não porque eu precise convencer alguém disso.

Mas porque deixei de terceirizar aos outros a definição de quem sou.


E agora quero lhe fazer algumas perguntas:


  • Você se enxerga do tamanho que realmente tem? Ou ainda se mede pelas expectativas dos outros?

  • Você diminui suas qualidades com a mesma facilidade com que amplia seus defeitos?

  • Quem você seria se não precisasse caber em nenhuma expectativa?


Talvez conhecer o próprio tamanho seja um dos atos mais difíceis da vida.

Porque exige coragem para abandonar máscaras, desaprender papéis e sustentar a própria existência sem pedir licença.


E talvez seja justamente aí que mora a verdadeira liberdade.

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